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O comboio nestes últimos 150 anos uniu e aproximou muitas regiões de Portugal. Ao contrário de outras terras, a proximidade de Penalva com a estação de caminhos-de-ferro de Mangualde, fez com que a linha da Beira Alta estivesse sempre presente no quotidiano das nossas populações e também no seu imaginário.
De comboio muitos chegavam e muitos partiam. De comboio se ia a Lisboa vêr o mar, e de comboio, Salazar visitava o Vimieiro. De comboio muitos foram para França em busca do sonho e da vida que a Beira não lhes dava. De comboio iam os militares para os mais diversos locais da geografia nacional, mesmo quando esta se estendia para o continente africano. De comboio. Esse transporte do imaginário oitocentista que nas beiras circulava em carris e na linha com o seu nome. A linha de comboio da Beira Alta.
A Linha da Beira Alta
O ano de 1875, marca o arranque do que hoje conhecemos como a linha de caminho de ferro da Beira alta. Governo fez publicar uma portaria régia em 9 de Abril de 1875, nomeando o Engº. Bento Fortunato de Moura Coutinho D'Almeida de Eça para organizar o projecto definitivo do caminho-de-ferro da Beira-Alta pelo norte do Mondego. Para o estudo do projecto definitivo dividiu o traçado em cinco secções. A 1ª secção de Pampilhosa a Santa Comba Dão, a 2ª secção de Santa Comba Dão a Mangualde, a 3ª de Mangualde a Vila Franca das Naves, a 4ª de Vila Franca das Naves a Vila Fernando, e a última de Vila Fernando à fronteira de Vilar Formoso. O ponto da fronteira junto a Vilar Formoso, foi demarcado por acordo de 18 de Novembro de 1875 entre os governos de Portugal e Espanha. O projecto definitivo do traçado deste caminho-de-ferro foi elaborado em conformidade com a portaria de 9 de Abril de 1875 foi remetido ao Governo pelo Engº. Bento de Moura em 1 de Fevereiro de 1876. Pela Lei de 26 de Janeiro de 1876, tinha o Governo sido autorizado a mandar proceder à construção do caminho-de-ferro por meio de concurso público que foi aberto por Decreto de 20 de Maio de 1876. Este concurso teve um único concorrente, a Societé Financière de Paris, e no dia 3 de Agosto de 1878 foi celebrado o contrato definitivo entre o Governo e esta empresa para a construção e exploração desta linha, estipulando-se uma subvenção quilométrica de 23.000$000 com a condição de as obras ficarem concluídas no prazo de 4 anos. Em Janeiro de 79 são aprovados os estatutos da sociedade anónima, Companhia dos Caminhos-de-ferro Portugueses da Beira Alta, fundada pela Societé Financière de Paris. Os trabalhos foram iniciados no mês de Outubro de 1878, e estavam terminados dentro do prazo e a 18 de Fevereiro de 1882, foi nomeada uma comissão de engenheiros que deviam inspeccionar os trabalhos e proceder às provas de pontes, e ainda examinar o material fixo e circulante. Do relatório da Societé Financière, consta que a empresa concessionária concedeu a 2 empreiteiros franceses a empreitada dos trabalhos - Sr. Duparchy e Sr.Dauderny. O empreiteiro Duparchy tomou conta do troço da empreitada entre Pampilhosa e Mangualde e, mais tarde, do da Pampilhosa à Figueira da Foz. O empreiteiro Dauderny ficou com a construção do troço Mangualde a Vilar Formoso. Por sua vez, cada um destes empreiteiros sub empreitava pequenos troços a diversos, o que tornava difícil a fiscalização, pois estes últimos, por sua vez, entregavam os trabalhos a terceiros. Nestas condições, tornava-se difícil à fiscalização obrigar os empreiteiros parciais, não exercendo a sua acção senão, através dos empreiteiros gerais. A 1 de Julho de 1882 é aberta à exploração pública da linha entre a Figueira e Vilar Formoso, e a 3 de Agosto è inaugurada oficialmente a linha da Beira Alta, com a presença do rei D. Luís I, membros do governo e pessoal superior da companhia construtora. A linha possuía 13 túneis com a extensão total de 3822 metros, existindo 14 pontes com a extensão total de 1658 metros, encontrando-se a sua grande maioria no percurso entre as estações de Pampilhosa e Santa Comba Dão. Actualmente é a única via-férrea portuguesa, onde se pode apreciar nas estações, uma placa com a indicação da altitude a que se encontram Em virtude da linha da Beira Alta não passar por Viseu, em 1883 é aberto o concurso público para a construção de um ramal que partido de Santa Comba Dão chegaria a Viseu, na que ficaria conhecida como a linha de caminhos de ferro do Dão. Devido a nunca terem sido atingidos os valores inicialmente calculados de tráfego e de rentabilidade económica na linha da Beira, em 1905 o tribunal do Comércio de Lisboa declara em estado de falência a Companhia dos caminhos-de-ferro Portugueses da Beira Alta, tendo sido também nesse ano aprovada em portaria o projecto de convenção da companhia falida e os seus credores. Em 1911 é efectuado o prolongamento da linha entre a Figueira e o seu porto marítimo, concluindo assim um dos objectivos iniciais da linha, que passava pelo escoamento das mercadorias chegadas a este porto por todo o interior e também por terras Espanholas. Em Dezembro de 1946 e redigida a escritura de transferência da companhia da Beira Alta para a CP, companhia estatal que gradualmente foi ficando na sua alçada com todas as linhas ferroviárias portuguesas. A 1 de Janeiro de 1947, a CP tomava posse das linhas e iniciava a sua exploração
A Actualidade
Como é natural em todas as estruturas e todas as construções realizadas pelo homem, a manutenção e as actualizações são realidades sempre presentes e que ciclicamente vão surgindo. No caso da linha da Beira Alta, esta não poderia fugir desta tendência de adaptação aos novos tempos e às novas exigências modernas de um país e de uma região no século XXI. Em Maio de 1988, foi decidido por parte da CP criar um gabinete responsável pela modernização da linha da Beira Alta. A linha algumas rectificações de traçado entre as estações de Pampilhosa e do Luso, bem como entre Vila Franca das Naves e a Guarda, bem como pequenas ajustamentos em outros pequenos pontos. Procedeu-se à instalação de catenárias, postos para controlo de tráfego, reforço de diversas pontes, sinalização automática comandada à distância, bem como um comando manual de emergência nas estações. Procedeu-se a uma substituição de carris, que antes possuíam uma capacidade de carga de 54 kgs para os actuais 60 kgs, que para além de permitirem receber comboios com cargas mais pesadas por eixo, mas também permitem que sejam atingidas velocidades até 200 kms/h. As tradicionais travessas de madeira foram substituídas por travessas de mono-bloco em betão pré-esforçado bem como acompanhadas por um novo balastro. A linha em si foi duplicada entre as estações de Pampilhosa e Luso. O ano de 1996 marca o início do serviço de exploração com tracção eléctrica entre a Pampilhosa e Mangualde, bem como a entrada em serviço dos sistemas de sinalização automática e a de telecomunicações entre a Pampilhosa e Vilar Formoso. No ano seguinte no mês de Janeiro tem início a tracção eléctrica entre Mangualde e a Guarde e em Abril desta cidade com a fronteira. Actualmente e depois do “esquecimento” ferroviário dos anos 80 e 90, a linha da Beira Alta, volta a ser uma oferta válida para as deslocações das pessoas da região da beira, comprovado no aumento considerável da percentagem dos passageiros da CP verificados em 2005. Hoje viajar pelo serviço Inter-cidades é sinal de conforto, rapidez, pontualidade, e num mundo em aumento gradual de temperatura, um sinal de poupança e de espírito ecologista. O emblemático comboio Sud-express, bem, esse é um serviço que a CP tem de urgentemente rever, para não cair a curto prazo no baú das recordações. O comboio e a linha da Beira Alta recomenda-se e cada vez mais deve ser uma alternativa de transporte para todos os Beirões e suas empresas.
luismgouveia@yahoo.com
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| 25 Jan 2007 - 3136 visitas |
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