Director: Bruno Pereira

 
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Caríssimos conterrâneos, pode parecer-vos repetição, mas nunca é demais relembrar que 2009 vai ser ano chave - senão em outros exercícios - no plano político.
Tendo em conta a actual conjuntura económica nacional e internacional, não será fácil pensar em cenários optimistas por parte do actual Governo português, muito menos em milagres por parte de outro partido político, após as próximas eleições legislativas. Por outras palavras, o Partido Socialista pode ter desta forma todas as condições para ganhar as próximas votações, dado que uma maioria dos eleitoralistas socialistas e, ainda simpatizantes, pode muito bem pensar, que esta é uma guerra que transcende fronteiras nacionais.
Para além destas eleições, quem quiser deslocar-se às urnas, vai ainda riscar no “papelinho” para as europeias e autárquicas. Definitivamente, juntar as primeiras e as últimas, está fora de questão. Vivemos um quotidiano muito difícil, carregado de nuvens negras, quer por uma fraca economia, desvalorização da moeda, fraca produtividade, pouquíssima exportação e bastante importação, enfim, tudo propenso à confusão entre o voto na continuidade de uma política de “apertar o cinto” ou, por outro lado, pensar que este não é o melhor caminho para um desenvolvimento económico sustentável e, vai daí, o votante pensar de novo, em não só, retirar a maioria absoluta ao actual Governo, como mudar o voto sabe-se lá, mais para a esquerda, ora mais para a direita. A continuidade e a mudança são sempre factores divergentes e, apesar de não acreditar na última hipótese, a primeira não me parece que volte a acontecer.
Segui com especial atenção - não por qualquer motivo especial - o XVI Congresso do Partido Socialista, este fim-de-semana em Espinho. Esperava uma abertura do pano, por parte do Secretário-Geral, diferente daquela que idealizei.
No seu primeiro dia de discurso, José Sócrates transmitiu ao seu fiel “auditório” e a todos aqueles que assistiram no sofá lá de casa, que ficou especialmente afectado com os últimos actos caluniosos e, ataques do foro pessoal, quer em forma de outdoors, quer verbalmente, quer nos vários meios de comunicação social, por parte de militantes e dirigentes de outros partidos políticos.
O congresso abriu assim, com alguém que está fragilizado, ferido e vitimizado, não politicamente, mas sim, pessoalmente, disparando em todos os sentidos. Um acto digno de uma qualquer tragédia grega.
Este exercício de vitimização, transmitiu-se a outras vozes fortes do partido, Arons de Carvalho, Vítor Ramalho e, o não menos polémico – nas últimas semanas - Augusto Santos Silva.
Com o Congresso aberto e, já em velocidade de cruzeiro, o secretário-geral, com mais ou menos queixinhas, lá ia enunciando a obra feita do seu mandato, um monólogo que aborrecia até os mais resistentes, como se via pelos vários bocejos, exercitados.
José Sócrates dera o mote desta toada, ainda, na noite de sexta-feira com o claro objectivo de criar uma ameaça externa para mobilizar a coesão do grupo. A receita estava a funcionar e, o bolo na cereja surge, por volta da abertura dos vários telejornais, dando a conhecer a nomeação de Vital Moreira, ex-comunista, político, grande intelectual e, colunista do jornal Público, ao Parlamento Europeu na bancada socialista.
Surpreendido não, mas agradado fiquei. De entre um punhado de nomes fortes, eis que aparece uma figura externa ao partido, tal como já acontecera com Freitas do Amaral e outros.
O Primeiro-Ministro dedicou também parte da sua oração, aos Media, acossando e reprimindo dois meios de comunicação social, a estação de Queluz e, a meu ver, um dos melhores jornais do país, o “Público”. Sócrates chegou mesmo a dizer alto e bom som que, "em democracia, quem governa é quem o povo escolhe, não é um qualquer director de jornal, com as suas campanhas, nem nenhuma televisão com as suas manipulações, nem nenhum cobarde a escrever cartas anónimas".
O direito de resposta surge breve, José Eduardo Moniz, director-geral da TVI, diz que o dirigente do PS, Arons de Carvalho, revelou "uma enorme falta de consciência cívica e de cultura democrática, quando, no sábado, acusou a TVI e o PÚBLICO de serem os autores da "campanha negra" referida por José Sócrates. Já o director do Público, José Manuel Fernandes, lamenta que Arons, "que tinha a obrigação de falar com conhecimento de causa, tenha esquecido duas coisas fundamentais em qualquer democracia aberta: a primeira é que, doa a quem doer, cumpre à comunicação social escrutinar tudo o que envolve os diferentes poderes. A segunda é que tenha esquecido o que um dos fundadores da primeira democracia moderna, Thomas Jefferson, escreveu: "Entre um país sem governo e um país sem jornais preferia o primeiro."
Sem o incomodativo “outsider”, poeta e político, Manuel Alegre lá para Norte, o debate estava assim centrado nas “lamúrias” daqueles que foram ao Congresso dizer que querem o partido mais unido que nunca, com um só ideal, o de seguir o seu líder e, menosprezar a crítica construtiva interna. É a minha sincera opinião, e vale o que vale aos olhos de vós, todo e qualquer grupo político deve ter uma ou mais vozes críticas, pois estas não desestabilizam, não lançam a confusão, não dividem partidos, mas sim, agitam os ideais presos às raízes mais profundas de qualquer partido.
Julgo que tal, não poderia ser transparecido, como me parece que foi, para um congresso que deveria trazer continuidade ao trabalho feito por este Governo, força, coragem aos seus militantes e, não menos importante, crédito à obra feita, sem tempo para lamúrias.
Outro momento forte do congresso foi quando José Sócrates prometeu um empenhado combate ao desemprego, assumindo-o como "a prioridade principal", aquela que já fora em meados de 2005, com toda a certeza, nessa altura contou com 380 mil desempregados, hoje pode contar já com mais de 450 mil.
De todos os oradores que puderam usufruir do microfone, até ao caricato corte de energia – não compreendo como é que o “staff” de Capoula Santos, organizador do evento, não possa ter pensado que esta e outras situações possam acontecer “in loco”, talvez nenhuma mente brilhante se tenha lembrado de um simples e suficiente gerador para dar continuidade aos trabalhos pelo menos por mais hora e meia – escutei, para alívio meu, as palavras de Vitalino Canas e José Seguro, com frontalidade assumiram que este não é tempo para vitimizações pessoais e políticas, mas sim para prestar especial atenção aos reais problemas de todos os portugueses. Era este o abrir de pano que eu idealizara.
Julgo – não pela falta de luz – que este congresso passou ao lado das moções que supostamente se deveriam discutir. A regionalização ainda foi uma ou outra vez citada por delegados do interior, como se em causa estivesse um recado ao secretário--geral, que na sexta-feira a tinha omitido; o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assunto incómodo para ser discutido; apenas Vera Jardim tratou de abordar a alteração fiscal que propõe uma redução dos benefícios fiscais dos contribuintes com rendimentos mais altos.
Um congresso é só por si, lugar para discutir temas e sentimentos internos, nunca para enaltecer as emoções nacionais. E este não fugiu à regra.
A partir deste fim-de-semana está oficialmente aberta a corrida às próximas três eleições. Vou acompanhar com afecto, o melhor e o pior de cada partido.

Marco Azevedo

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3 Mar 2009 - 602 visitas











 

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