A 2 e 3 de Novembro, Mangualde volta a ser festa, feira, animação, vida, economia, alegria, bulício, convívio e, sobretudo, será Mangualde em movimento no seu melhor, hoje mais do que nunca, com a sua Feira dos Santos ora renovada, vestida em novas roupagens, multifacetada, mais variada, mais dinâmica, mais rica, mais amiga dos Mangualdenses e, dispersa por mil e um eventos para todos….

Mangualde vai de novo viver a sua Feira dos Santos, que remonta a passados séculos… há mais de 300 anos… e foi e é tradição sem igual de todas as suas gerações… que sempre a viveram e vivem, com iguais amores e entusiasmos.

A Feira dos Santos trazia e traz a Mangualde a alma autêntica do Portugal profundo e lindo, que habitou História fora por terras das Beiras, na sua dimensão rural e popular mais pura, seja nas artes de tudo comerciar, ou dos comes e bebes e ou, dos folgares das crianças e adultos.

Criança e adolescente, para mim, a feira dos Santos era como que uma fantasia, um sonho muito desejado e ansiado de se viver, e que chegava todos os anos pelos Santos, embora um pouco efémero, como todos os sonhos … apenas dois dias!

Para as juventudes de então, mal começadas as aulas, escola ou colégio, a Feira dos Santos passava a alegria omnipresente em Mangualde, nos pensares e nos conversares e ia vindo aos poucos…. para gáudio e alimento de curiosidades sempre renovadas, no chegar do Circo, do Carrossel, dos Carrinhos, dos Matraquilhos, etc… instalados estes sempre lá no largo do Alto do Rossio… ao pé da taberna do saudoso Saldanha, onde se comprava o sal em bruto…

E o Alto do Rossio em Mangualde passava então a ser um lugar mágico para a criançada,  jovens e até adultos… quinze dias antes e depois da feira, virando local de romagens ou peregrinações diárias, minhas e de quase todos.

Basbaques e embasbacados, por ali nos perdíamos a olhar o erguer da imensa tenda do circo, as temidas feras nas suas jaulas, os artistas… ídolos para nós… ah! o meu sonho de então era ser trapezista… podia me ter dado para pior… e mais as muitas caravanas do circo… e ainda a montagem do carrossel, carrinhos… tudo isto a meias com a música em sonoridades alarmantes, mas de que gostávamos,  anunciando ao povo que… “chegámos, estamos aqui, venham ver-nos… “ e se  ia, o povo ia em peso à feira… quer os mangualdenses, quer um sem fim de gentes vindas de léguas em redor.

O tempo transcorria lento e tudo se aprontava para os dois  grandes dias da feira; entretanto, os feirantes iam chegando também e iam-se distribuindo e instalando Mangualde fora, nos seus espaços próprios, de calçados, louças, roupas, carnes, enchidos e febras, barracas de venda de tintos e pirolitos, brinquedos e doçarias secas, ferramentas, agriculturas, gados… tudo… era um imenso bazar ou centro comercial ao ar livre… genuinamente popular, e beirão.

Mangualde tinha então o seu coreto… no jardim, mesmo no centro da Vila e ali passei eu ensonadas noites da feira a ouvir, com a avó e mãe, e mais o povo todo, a banda de Lobelhe, o Jazz de Mangualde e outras… recordações, que são a vida minha de hoje, feita de memórias como estas.

Os meus encantos e da juventude em geral eram, no entanto, lá mais os do Alto do Rossio…. o circo, o carrossel, etc… e os matraquilhos, o meter da moedita nos ditos e o saltar das bolas… uma de cada vez em campo… e a guerra total no driblar, rematar e meter golos… em bolas bem batidas que se iam perdendo balizas dentro, onde se acabavam em busca de mais moedas, que não tínhamos…

Era lá, nas barracas dos matraquilhos, que estavam também as máquinas com os discos das músicas do tempo, nacionais e não só, metia-se uma moeda, escolhia-se a música… e toca de ouvir…. Tony de Matos e a “Pedra caiu”, Alberto Cortez e “Las Palmeras”, Paul Anka e “Diana”, Elvis Presley e “It is now or never”, António Calvário e a “Oração”, Gigliola Cinqueti e “No no Leta”, Adamo e “Tombe la neige e La nuit”, “Let us twist again” de Lopez… etc… ficava-me por ali a ouvir… não tinha música em casa…

Andei pela primeira vez de carrossel na feira dos Santos… menino ainda, escolhia sempre os cavalos… ficava-me o olhar nas várias figuras e nas acrobacias e gincanas dos empregados nas andanças velozes do carrossel em movimento… e depois os carrinhos… em voltas, reviravoltas, choques e contra choques a meias com as gritarias dos altifalantes…. perdia-se-me lá a imaginação…, mas a parca bolsa da avó não dava para mais que o carrossel…

Quase todos os dias antes, durante e depois da feira, religiosamente, passava pelo Rossio, só para olhar e beber toda aquela fantasilândia ali de breve passagem em Mangualde… era um mundo que só voltaria um ano depois.

Chegada a feira, a minha avó aprontava-me e lá íamos, vestidos das humildes melhores fatiotas … tinha sempre umas coisas para comprar na feira dos Santos… tal como toda a gente… era mais barato e havia mais escolha… íamos primeiro comprar as minhas botas para a escola, de carneira e pneu … dava gosto ver a minha avó e toda a gente a regatear preços … que iam baixando… e depois, o se não baixa mais não compro… vou embora… simulava que ia… o vendedor chamava, está bem.. e continuava a coisa… finalmente, lá me comprava as botas… era exímia neste teatro, usos mouriscos ainda, em que o regatear é questão de honra… mais umas louças, umas roupas…

… depois íamos Mangualde fora, inundado e transbordado de feira dos Santos, de feirantes, visitantes, habitantes… barracas de tudo… folclores altos e de bom som… banhas da cobras aqui e ali em vendas de si mesma, em caixinhas mínimas… e os inesquecíveis musicantes e cantantes de histórias desgraçadinhas, mas reais, de amores e desamores, acontecidas algures, e que faziam as gentes derramar lágrimas de dós e piedades pelas cantadas maldades e tristezas… mas tudo era vida a jorrar energia, sentires, esperanças feitas de hojes e amanhãs… era o Portugal profundo, verdadeiro, de coração rural e popular ao peito, no melhor de si próprio… era assim o meu Mangualde… e a sua feira dos Santos.. nos idos de 60 e 70…

Hoje continua igual a si própria para mais completa, mergulhada de novo com a cidade e a cidade nesta e mais os seus habitantes e visitantes… é assim que deve ser,  a Feira dos Santos  vive apenas e só dentro de Mangualde… e não fora, porque ela própria é Mangualde… mas tem agora uma nova dinâmica, uma face mais evoluída, mais rica e mais progressiva nos tempos que correm… graças ao esforço, à iniciativa e à imaginação empenhada da eficiente e inteligente Gestão Autárquica, a quem, todos os Mangualdenses, devem agradecer este manter e revivificar extraordinário da Feira dos Santos.

 

José Luís da Costa Sousa

Um Mangualdense