A romaria da N. S. do Castelo, Mangualde, era e é ainda hoje a mais ansiada e popular de todas, muitas léguas em redor, e foi o encanto da criança e adolescente que fui, nesta terra nascido e crescido.
Lá do cimo da serra da Nossa Senhora do Castelo, a sua Ermida, com traça de rara beleza, é o ex-líbris e o Anjo da Guarda dum Mangualde que, mui devoto, se estende mansamente a seus pés, como que em acção de graças, pelas boas sortes das suas gentes laboriosas e hospitaleiras.
É nos dias 7 e 8 de Setembro que se festeja a Nossa Senhora do Castelo, em religiosidades e profanidades singelas, mas que faziam e fazem ainda as alegrias de todos nós, os daqui, mas também os dali e os d´além, num sem número de visitantes.
À meia noite de 7 para 8 de Setembro, lá no alto da ermida, encimada esta pela imensa cruz iluminada, o céu acendia-se e explodia mil e uma vezes em artifícios de fogos, feitos espectáculo inolvidável das miríades de luzes, cores e sons, intensos, maravilhosos e sem igual por terras do antigo Concelho de Azurara da Beira.
A 8 de todos os Setembros, dos meus tempos infantes e adolescentes, recordo logo no madrugar da aurora, os alvoroços da aldeia, mobilizada nos intensos preparativos da romagem à Nossa Senhora do Castelo.
Esses preparativos eram o cozinhar das merendas familiares, o arrear dos melhores vestires de lavado, o botar dos cestos de vimen à cabeça abarrotados de comeres, nesse dia mimados, e o “vamos lá”, caminhos e atalhos fora, em alegres, ansiosos e romeiros caminhares, rostos abertos em gargalhares e sorrisos feitos de contentamentos contentes, na perspectiva da festa.
Mangualde, hoje, sobe directo à sua Ermida passeando-se pela sua mais ampla e moderna avenida, até ao sopé da clássica e monumental escadaria de granitos e capelinhas, que, depois, nos leva mesmo ao interior da igreja e nos coloca face a face com a imagem da Santa que dali, padroeira, vê, cuida e abençoa toda a sua cidade e os seus bem aventurados Zurões.
A festa começava logo no subir da escadaria, de lanço em lanço, capelinha a capelinha, os mais novos corriam irrequietudes no contar dos largos degraus, um a um, os mais velhos rezavam numa ou outra e, finalmente, altaneira e esplendorosa, eis a Ermida, ali mesmo à nossa frente, em toda a sua simples, mas encantadora monumentalidade.
Ficava-me ali impactado pela altura e imponência da torre sineira, da qual me contou o meu pai, que um dia um homem, desconhecido na terra, a tinha subido por fora e eu pasmava-me, perante tamanho feito, que eu adoraria ter visto.
Curiosos, putos que éramos, subíamos pelas escadas interiores a ir ver os sinos, e gozar os horizontes de verdes sem fim e quase vazios, de tão longes que dali são todos os longes das nossas Azuraras terras.
E, lá de cima, abraçávamos o nosso Mangualde e todos os seus aléns, em mirares de espantos e de “olha lá em baixo a minha casa!”
Depois o ir à igreja em rituais cumpridos de rezas, ajoelhares, sinais de cruzes e sobretudo, no adorar da beleza serena do rosto límpido e maravilhoso da Santa; o azul do seu manto ofuscava-me sempre, de tão celeste que é, sem igual.
Seguia-se a procissão em voltas à ermida, bem orada e devotada e, era o fim do sagrado da festa; depois eram as profanidades da mesma, os comeres, beberes, músicas, cantares e namorares em fartos dançares.
Mas, primeiro, íamos à procura dum lugar serra fora, para sentar e estender a merenda e a família; era um gincanar alegre entre outros merendeiros já por ali instalados ao acaso, uns conhecidos, outros não e, finalmente, a laje desejada, ali estava, a mãe da família estendia-lhe logo a toalha em cima e, sobre o seu xadrez de brancos e azuis, vermelhos ou verdes, distribuía com vaidades humildes uns comes melhorados, feitos de algumas doçuras, umas tantas frituras e parcas carnes festivas.
O merendar na Senhora do Castelo era sempre um acto de magia, pelo local, o piquenique e o ambiente carregado de felicidades frugais e inocentes, de folclores vivos da alma lusa e, de gentes com ares de hinos á alegria, inesquecível.
Por ali se encontravam pessoas que há muito se não viam e, que desfiavam as suas vidas uns aos outros em prazerosas conversas, molhadas a tintos entre os homens e a mexericos bem mexericados entre as mulheres.
Comidos, lá íamos em juvenis entusiasmos ver as tendas em vendas de tintos a quartilho e copos de três, outras de doces, os tradicionais beijinhos, cavacas, corações e outras ainda de brinquedos, melões e melancias, olhávamos, mas era tudo, ficavam por lá os olhares e os desejos em bolsos vazios, cheios de nadas de tão falidos que eram.
Mas, que importavam os falidos bolsos, era tudo tão simples e tão lindo, tão puro, tão diferente, tão único e, a terra e o trabalho duro, por si só, garantiam-nos a vida.
No ar havia melodias, folclores, força, energia, corações ao alto num esquecer das rudezas monótonas e aldeãs, que eram as vidas de quase todos nós então, anos fora.
O ir ao fundo do poço dos mouros, ali mesmo, era um ritual sempre vertido em admirações temerosas, no caracolear do sem fim da escada em granito, descendo degrau a degrau terra adentro até às águas lá muito em baixo, onde tudo era escuridão, paredes húmidas, limos e pompílios, cheiros de mistérios, coisas várias e lendas da moirama de outros tempos, que tinham sido alcaides, donos e senhores do Castelo e terras de Azurara.
Depois a festa tornava-se bailação noite fora, e o povo, velho e novo, virava, marchava, tangava, passo-doblava e valsava até de madrugada.
A rapaziada essa, aperaltada de lavado e a ferro passada, pago o ingresso no recinto do baile entrava, as luzes multicores, o coreto, o conjunto e as suas músicas, ora vivas e bem ritmadas, ora românticas, todas de dançar agarradinhos, era assim como que um devaneio de noite de Verão, naquele então.
De um lado os rapazes, no seu oposto as meninas e as mães guardiães, frente a frente, em observações mútuas, elas disfarçadas, eles mais declarados, a iniciativa era masculina, intervalo entre músicas, nova música e cada um avançava para a sua eleita, a menina dança, umas vezes sim, outras tampas e seguiam as danças.
Os bailes eram sonhos do ano inteiro; só ali, nas festas e romarias, os costumes de então deixavam rapazes e raparigas apresentarem-se, conhecerem-se, falarem-se, tocarem-se, agarrarem-se, sentirem-se, respirarem-se, olharem-se olhos nos olhos nas voltas e reviravoltas das danças e contradanças, salvaguardadas as distâncias e, depois, no regresso a casa, conversas e indiscrições das sortes nos “namorares” ou não, quiçá, eventuais não amares, enfim, alguns azares.
Lá para bem depois da meia noite, esgotada a festa e o relógio, os aldeões lá regressavam caminhos fora e apeados a casa, cheios das vividas devoções religiosas e das alegrias e prazeres simples da festa, todos os anos renovada/os com a mesma energia, e a mesma crença na protecção secular da Nossa Senhora do Castelo.
JOSÉ LUIZ DA COSTA E SOUSA
EXTRAÍDO DE UM LIVRO QUE EDITEI E APENAS DISTRIBUÍ AOS MEUS AMIGOS DA ENTÃO QUINTA DE S. COSMADO …. QUE VIVERAM COMIGO A INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA POR ESTAS MARAVILHOSA TERRAS DE AZURARA DA BEIRA
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